quarta-feira, 31 de março de 2010

Jardim das Oliveiras.



Para quem há muito se afastou da igreja, dias como os que se aproximam perderam grande parte do seu significado. Quando era criança e ia à catequese, os dias da Pascoa estavam preenchidos por um sentimento especial. Fosse porque eram as férias, ou porque a primavera se instalava mais facilmente no meu coração de menino, certo era que esses dias eram vividos com a alegria pura de quem acreditava e tinha fé. Os textos da Bíblia falavam de um Jesus que renascia vencendo a morte, de um Jesus que sofrera tos os grandes males do mundo, de um Jesus profundamente atormentado, escolhido por Deus mas ainda assim abandonado para morrer como os Homens. A Bíblia contava e uma criança como eu era, acreditava.

Desse tempo límpido e cheio da luz da Primavera, segue-se a dúvida ou mesmo a morte. Mas entre eles ficou um jardim. Fui num jardim bíblico que Jesus soube que ia morrer. Foi num jardim que O pai abandonou o seu filho escolhido, à sua sorte. E assim a Bíblia completa mais uma vez a parábola da vida do Homem, deixado no jardim terrestre para sempre abandonado por Deus.
Foi num jardim em Jerusalém, plantado de oliveiras que a vida do Homem foi desenhada à luz dos Deuses. Para tal jardim ficou assim reservado um significado bem terreno. O Jardim das Oliveiras são as horas de inquietação vividas por todos nós na experiência da vida. Jesus nele experimentou o desolamento; ele representa os nossos momentos de dúvida: a condição humana vivida afinal por um Deus que crescendo, descobre que os jardins também podem ser lugares de desolação e duvida.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Um jardim em Portalegre.


No Rossio de Portalegre mesmo à entrada da cidade há um jardim, há um ano atrás quando visitei aquela cidade Alentejana fiquei surpreendido com este belo jardim. É relativamente pequeno, mas tem uma área de relvado bastante aprazível e bastante bem cuidada e que alem do mais até é um jardim com flores, algo que agora é coisa bastante rara em terras lusas... já que também aos jardim a crise chegou forte e, aquilo que em outros países é algo aceitável; um jardim com flores, em Portugal a relva e alguns (poucos) arbustos, substituíram as plantas com flor e as árvores, que parecem não caber no orçamento dos diversos programas polis que tem desfilado, e alguns muito bem, por esse país fora. Contudo um pouco mais atenção e requinte é necessário a quem tem projectado os novos jardins de Portugal, os jardins fizeram-se para apreciar a diversidade vegetal e plantar grandes extensões de monótonos e dispendiosos relvados não é coisa inteligente.

Continuando com o Jardim do Rossio em Portalegre, há a destacar então os magníficos canteiros de plantas do género Viola, ou como entre nós este cultivar é mais conhecido, de amores-perfeitos, que eram de varias cores e apresentavam um lindíssimo espectáculo a que poucos se mostravam indiferentes.

Mas o que há realmente a destacar neste jardim é o Plátano Gigante de Portalegre. Esta árvore que foi plantada em 1848, pelo botânico Dr. José Maria Grande, junto a uma linha de água, tem hoje o tronco em grande parte soterrado, em virtude dos aterros sucessivos para nivelamento do actual arruamento (Av. da Liberdade).

É uma árvore considerada de interesse público por decreto publicado em "Diário do Governo". Do tronco que presentemente é muito curto, com 5, 26 m de P.A.P., saem inúmeras pernadas que formam uma copa larga e densa, com 27 m. de diâmetro. Plantado ao acaso conjuntamente com outras árvores, cuja sorte foi efémera, este plátano vingou e continua a desafiar o tempo, quem sabe se por mais um século ou dois.
Sob a sua frondosa copa muitas coisas se têm passado através dos tempos. Nos tempos da política regeneradora-progressista, esta gigantesca árvore serviu para proclamar os vencedores das lutas eleitorais da época, que aqui hasteavam a sua bandeira. Mas houve um dia em que o Plátano foi condenado à "morte", chegando a serrar-se o seu tronco até ao meio. Mas o povo portalegrense, orgulhoso de tão belo "monumento" revoltou-se e não permitiu que se chegasse a concretizar o "crime".

É a mais antiga árvore classificada de interesse público portuguesa, registada a 28 de Agosto de 1938. Sendo caso para dizer que este magnifico Plátano é quase um milagre em terra de gente que pouco sabe preservar e muito menos o seu património vegetal.

sábado, 27 de março de 2010

Um jardim que ainda não é.






Cerca de grandes muros quem te sonhas.

Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.


Faze canteiros como os que outros têm
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...




Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'