quarta-feira, 22 de março de 2017

Helleborus em Kew Gardens

Helleborus x orientalis e Scilla siberica no jardim de bosque

Helleborus atrorubens no "rock garden"

Helleborus bocconei ssp. siculus

Helleborus x hybridus no jardim de bosque

Helleborus argutifolius

Helleborus multifidus

Helleborus foetidos, erva-besteira 

Helleborus vesicarius

Helleborus x hybridus em kew gardens


A primeira vez que vi um Helleborus foi numa publicação em fascículos coleccionáveis sobre plantas de interior e flores de corte que vinham com o JN na edição de domingo, isto há muitos anos, era eu adolescente ainda. Lembro-me de ficar intrigado com a aparência daquela flor, alguma coisa naquele formato era-me bastante estranho e ao mesmo tempo chamava à atenção. Recordo de logo na altura achar que nunca tinha visto algo semelhante e de assumir que não seria possível o cultivo desta planta em Portugal.   

O contacto seguinte com a Helleborus foi já na faculdade, durante as aulas de biologia vegetal. Lembro-me de existir uma estampa da nativa Helleborus foetidus nas projecções das aulas, enquadrada nas classificações das famílias. Mas, em nada a bela imagem da H. foetidos me fez reportar àquela planta que tinha visto no JN e foi só quando visitei há uns anos atrás o jardim botânico de Colónia na Alemanha que finalmente houve um nome para dar à bela planta do meu passado: era uma Helleborus também! Mais precisamente um híbrido de Helleborus orientalis.  

Estavam ali à minha frente, de imediato vieram à memoria as folhas do JN e da sua edição de Flores de Corte, eram aquelas mesmas flores que durante anos me tinham intrigado e das quais nem sabia o nome. E muito perto destas, um belo exemplar de H. foetidos. Como era possível que nunca tivesse relacionado as duas espécies antes? Sempre achei que tinha uma certa intuição para associar plantas da mesma família. 

A razão poder ter resposta nos meus limitados conhecimentos de sistemática na altura, mas acho que a botânica particular deste Género ajudou na minha confusão. Enquanto as H. foetidus é uma espécie caulescente, isto é, as folhas crescem a partir de um caule, a H. orientalis pertence ao grupo acaulescente, em que as folhas têm crescimento basal a partir do rizoma. Mas, penso que terá sido a própria flor a causar maior confusão. Na H. foetidos as flores têm forma de uma pequena taça invertida, sendo as sépalas de cor verde-lima e nada têm a ver com a dos híbridos de H. orientais. Nesta espécie, as flores chegam a parecer uma rosa singela, tal a modificação das suas sépalas no sentido daquilo que conhecemos como verdadeiras pétalas. Aliás, o nome nos países onde são comuns é "rosa da quaresma", dando ideia de flores atraentes, ao contrario da H. foetidos para a qual estavam reservados nomes comuns bem menos lisonjeadores.  

O meu encantamento pela Helleborus, embora venha de longe, não se esgotou com o tempo, pelo contrario, é das plantas que mais prazer me dá cultivar no jardim e é sempre com algum espanto que a vejo despertar no início do Inverno. As suas hastes florais desdobram-se gordas à superfície da terra e prometem cedo o espectáculo que lá para Fevereiro estará em pleno. Toda a planta é atraente mas, é o habito ligeiramente pendente da haste floral, encimada pelas brácteas folhosas que o tornam tão especial e que a mim me cativaram. É realmente fascinante ter a oportunidade de as cultivar no meu jardim.   

Mas nem sempre foi assim. Ainda antes de ter uma destas plantas já acreditava que não se podiam cultivar em solo português, alguns exemplos vieram mostrar o contrario e aos poucos o mito de planta difícil foi desaparecendo. A prova final veio a partir do momento que as comecei a cultivar e com resultados logo muito encorajadores. Ali estavam elas a florir à minha frente, mas desta vez no meu próprio jardim! Quantos anos depois daquele primeira foto no JN? Não faço ideia, mas muitos mesmo.  

Os híbridos que tenho são o comum "Pretty Ellen", híbridos do H. orientalis, cujo tipo selvagem tem flor verde mais simples e do qual se têm vindo a obter uma vasta variedade de cores e formas.  Mas, quem gosta disto das plantas, quer sempre ir às origens e foi com essas intenção que me desloquei a Kew: queria ver o mais possível espécies de Helleborus. E lá estavam algumas, cada uma com o seu encantamento próprio, ou fosse pelas flores verdes com sépalas desenvolvidas ou pelo habito acaulescente com as flores surgindo do solo. Este tipo de haste floral remete para uma certa resiliência e rusticidade. Lembram os sítios de onde são autóctones, bosque de montanha, orlas de florestas antigas e de alguma forma prendem a minha imaginação nesses mesmos sítios. Sítios nada longínquos até: quase todas as espécies são europeias e apenas uma asiática. Algumas são transalpinas, outras dos Balcãs, centro europeias, da Europa Ocidental e até ibéricas. E nesta lotaria das espécies apenas nos calhou a Helleborus foetidos

Das espécies representadas em Kew, destaco H. atrorubens da Croácia e Eslovénia; H. bocconei do sul de Itália, tem as inflorescências verdes e folhas bastante lanceoladas, acaulescente. H. multificus, dos Balcãs, cujo restritivo específico refere-se às folhas bastante recortadas, que chegam a lembrar uma pequena palmeira. H. versicarius é parecido com H. foetidos mas, a sua distribuição é bastante afastada geograficamente, restringindo-se ao Este da Turquia e Norte da Síria. H. argutifolios, mais uma espécie  mediterrânica, nativa das montanhas da Córsega e Sicília. É caulescente e é também a espécie de maior dimensão de todos os Helleborus. Tem um porte elegante e é amplamente usado em jardins.  


Podem aparecer na Europa meridional até à Central e depois para a Síria e China onde está representado pela H. tibetanus mas, todos os Helleborus têm com uma coisa em comum, a preferência por um solo alcalino, quase sempre ligados a maciços calcários. No jardim botânico de Kew quase todos podem ser vistos no "rock garden". 


http://www.helleborus.de/en/things-to-know/distribution/
http://flora-on.pt/#/1Helleborus
https://carolynsshadegardens.com/tag/helleborus-multifidus-subsp-hercegovinus/

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Início da Primavera em Londres

Crocus sp


Galanthus nivalis

Galanthus nivalis

Galanthus nivalis

Galanthus / Helleborus 'Spring Promisse' / Helleborus 'Harvington Red'

Helleborus 'Viv Victoria'
Narcissus cyclamineus

A Primavera está por aí e os dias crescem em Londres. Os jardins ganham aos poucos cor mas, os meus pensamentos estão em Portugal e no meu jardim em particular. Tenho tido noticias, mas faltam as fotos para ajudar a matar saudades...ou melhor, faltam os cheiros, a luz. Falta-me atravessar o portão e tactear os canteiros à procura de cada planta.  Falta-me, porque é meu e é o único jardim que tenho. É difícil imaginar o quanto um pequeno pedaço de terra meridional se pode fazer transportar e ocupar a mente, o pensamento de um homem que vive longe. Um pedaço de terra, que nem sempre foi jardim, e que quase continua a não ser. Antes foi quintal, depois horta e hoje é um jardim suspenso: idealizado, inacabado, acima de tudo uma ideia, que veio a tomar forma e que tomou conta de tanto do que sou. E mesmo eu estando longe, nas terras do Norte, não deixa nunca de estar presente.

O Jardim Suspenso nuca foi tão suspenso como é hoje. As circunstancias ditam o afastamento do seu jardineiro, que se dedica agora a admirar as plantas dos outros. Plantas estranhas aos olhos portugueses, de uma terra alheia, como aquelas a que chamam "snowdrops", Galanthus nivalis para os entendidos, e que é aqui tão comum, quanto o é uma esteva nas serras de Portugal. Plantas estranhas, que relembram ao jardineiro todos os dias, que vive longe e que o jardim já não fica nas traseiras de casa, fica num outro país, à distancia de meses.  

Quando comecei este blog, estava longe de imaginar que um dia o seu nome faria tanto sentido como hoje. É difícil viver um jardim suspenso: os jardins precisam de cuidado diário, a distancia impõem-se e um jardim não vive de memorias. Talvez o nome mais adequado para este blogue fosse hoje "O Jardineiro Ausente", o nome parece assentar que nem uma luva a um jardim que se vai fazendo à distancia e em folhas de papel, desenhado e projectado mil vezes, mas nem por isso mais próximo. 

O jardineiro está longe mas, não só o jardineiro vive desterrado. Por aqui vive há muito mais tempo uma planta do Sul, a Narcissus cyclamineus. Na verdade é-me difícil imagina-la como uma planta do sul, porque toda a vida a considerei uma planta do Norte: é autóctone no Norte de Portugal onde tem duas populações principais , uma no rio Coura e outra no rio Teixeira. É uma planta do norte do Sul e onde vive hoje, acima do paralelo 50, são bastante apreciadas, mais até que no seu próprio país, onde não passam de ilustres desconhecidas. 

Mas, não é por estarem longe que os Narcissus cyclamineus deixam de anunciar o final do Inverno, tal como as Galanthus, também elas plantas emigrantes, oriundas da Europa Central. Estas duas plantas da mesma família estão entre as primeiras a florir, dedicando-se ao anuncio do início estação vernal. Fazem-no, no entanto de forma diferente, em vez de se vestirem de branco como a neve, a N. cyclamineus veste-se de amarelo como o sol do país do Sul. Ambas tímidas ainda, apontam a sua corola ao chão, sinal de que em terras lusas pode chover tanto nos meses de invernia, quanto nas terras do Norte. 

E foi assim, por acaso, que neste país ilha, amante de tudo quanto é botânico, que se juntaram Galanthus nivalis e Narcisus cyclamineos, plantas de origens geográficas diferentes mas, muitas vezes aparecendo lado a lado nessa coisa muito britânica que são os rock gardens. Num dia de Fevereiro podem-se ver os dois brilhar, fazendo as alegrias dos jardineiros do país do Norte e também do jardineiro ausente, ambos sedentos de cor no final do Inverno. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

De Fevereiro...

 O jardim em Fevereiro 2016
Helleborus "pretty  Ellen"

 Helleborus x hybridus no Botânico da Ajuda 2016

Leucojum aestivum no meu jardim 2016
 Vista do jardim em Fevereiro de 2016


As fotos são todas do ano passado, mas ilustram bem o que pode ser Fevereiro num jardim em Portugal. Se a geada não foi forte, ou se se vive num sitio sem geadas, podemos já começar a apreciar as renovadas texturas vegetais à medida que as plantas iniciam o seu novo ciclo vegetativo. Se por outro lado, as geadas fizeram estragos. com ajuda das chuvas, daqui a poucas semanas podemos ter o jardim em força e totalmente renovado.

Nesta altura, os primeiros Narcissus, Crocus e Leucojum começam a florir. Dependendo dos anos, Fevereiro marca de certa forma o início da época dos bolbos de Primavera. Falemos, por exemplo, do Leucojum aestivum, um pequeno bolbo da mesma família do narciso, que é nativo da Europa Central ao Médio Oriente. Devem ser tratados basicamente como os Narcissus, qualquer solo com boa drenagem e relativamente rico serve para o cultivo destas plantas. São fáceis de manter e aumentam de numero rapidamente com o tempo. Os meus vieram do Algarve, oferecidos por uma amigo blogger e desde então já formam um maciço apreciável e com várias hastes florais, segundo os últimos relatos que me chegaram.  

Os Helleborus haviam já iniciado no mês anterior mas, é em Fevereiro que se encontram em plena Floração. Nas fotos estão dois belos exemplares de Helleborus, ilustrando bem o quanto podem fazer num jardim de Primavera. Alguns cultivares são mais floríferos do que outros, o das fotos, que está no jardim botânicos da Ajuda, é dos que conheço, aquele que apresenta as melhores florações. O período de floração é bastante longo e a planta mantêm um certo interesse durante pelo menos mais um mês, já que as sépalas são retidas pela haste floral mesmo depois da semente estar formada. Este facto reveste-se de uma certa importância na biologia do Helleborus, estudos indicam que a persistência das sépalas é importante  no desenvolvimento da semente. Os Helleborus que existem na Ajuda são particularmente prolíferos nesta matéria, produzindo muita semente fértil e pelo Outono é possível verificar a existência de centenas de pequenas plantulas na base da planta mãe. 
  
http://www.amjbot.org/content/92/9/1486

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Inverno em Kew

Helleborus tibatanus
Silla maderensis, Narcissus cantabricus / Narcissus romiuxii / Narcissus cantabricus
Casa das alpinas e o Jardim Rochoso / Galanthus plicatus "Three Ships"
Galanthus elwesii var. monostictus
Galanthus no jardim rochoso
Chimonathus praecox / Edgeworthia chrysantha

No fim de semana passado fui de novo até Kew Gardens e não pode deixar de reparar o quanto as coisas estão atrasadas em relação ao ano passado. Há exactamente um ano atrás (aqui), eu vim pela primeira vez a Inglaterra e a visita a Kew foi um dos pontos altos da viagem, mas nessa altura encontrei um jardim muito mais avançado nas florações de Inverno. Este ano as coisas parecem estar a decorrer a um ritmo normal para a época e como seria de esperar poucas plantas estavam em for. O gelo das ultimas semanas tem sido muito e, ao contrario do ano anterior, encontrei o próprio lago em frente à Casa das Palmeiras completamente congelado.

Na zona do jardim rochoso, tínhamos desta vez praticamente só Galanthus em floração, as famosas "swnowdops", ou "gota-de-neve". São plantas da família Amaryllidaceae que se encontram espalhadas um pouco por toda a Europa Central e Balcãs, tendo-se naturalizado nas Ilhas Britânicas, onde atingiram uma espécie de estatuto de estrela: é quase obrigatório vermos Galanthus num jardim inglês durante os meses de Inverno. São eles sempre o primeiros bolbos a florir recebendo todas as atenções durante mais de um mês. Acabada a floração está na hora de propagar, já que é nesta altura que se levantam os conjuntos de bolbos, se dividem "in the green" e se voltam a plantar na terra sem os deixar secar. Uma razão apontada para o pouco sucesso em Portugal será a baixa qualidade dos bolbos que chegam ao nosso mercado e a secura a que ficam expostos durante o longo Verão, levando à morte dos mesmos por dessecação.  

Um outra planta na qual é impossível deixar de reparar é na Chimonanthus praecox, um magnífico arbusto nesta altura do ano, com delicadas flores translucidas, pendentes e que exalam um perfume único durante o Inverno. É originário da China, e encontra-se em cultivo no Reino Unido desde 1766, mas a primeira descrição desta planta foi feita por um português, Álvaro Semedo, à qual chamou "flor do 12º mês". Aqui dá-se um nome mais apropriado para a língua de camões. Não parece ter grandes exigências em relação ao solo onde cresce, mas um bom solo e com boa drenagem será sempre preferível. Leva algum tempo até florir, uns bons 7 anos por vezes, e não aprecia podas muito drásticas, sobretudo enquanto a planta for jovem. 

Por ultimo destaco a belíssima Edgeworthia chrysantha, planta também de origens orientais, do Nepal ao Japão, e que chega aos jardins do ocidente apenas no século XIX. É exigente quanto ao seu cultivo, necessitando de um solo rico em húmus e matéria orgânica, fresco mas, com boa drenagem. Prefere um local abrigado, com alguma sombra, e não gosta de secar totalmente no verão. A pesar de difícil, as suas flores de perfume intenso em pleno Inverno e o seu habito peculiar, fazem valer a pena o esforço de tentar o cultivo em jardim.  


O lago perto de Victoria Gate e a Casa das Palmeiras

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Plant of the Year Award 2016

Echinops ritro, Achillea filipebdulina, Miscanthus e Phlomis tuberosa
Echinops ritro com outras vivazes no Verão
Echinops ritro com Scabiosa atropurpurea
Decidi dar o prémio para a planta do ano no meu jardim durante 2016. Esta não foi uma escolha difícil, a escolha recaiu sobre uma das minhas melhores aquisições dos últimos anos a Echinops ritro. É uma planta na qual uma boa parte dos meus esquemas assentam e na qual confio para manter o interesse, mesmo para alem dos meses tradicionais de floração. Ela continua em flor bem depois do Verão, prolongando-se mesmo até às primeiras geadas. Ainda há 2 semanas atrás tinha Echinops em flor no jardim. 

As Echinops ritro no meu jardim não são plantas exigentes. Não requerem muitas regas e não exigem solo especialmente rico. Pelo contrario, elas estão quase todas nas zonas mais expostas do meu jardim e no Verão não se parecem importar nada com a secura. Na verdade, parece florir melhor em solos relativamente pobres e com rega apenas ocasional. Gostam de ter uma boa drenagem, não suportam solos demasiado densos.  

É fácil começar as Echinops no jardim, aconselho a fazê-lo  por divisão da raiz da planta mãe. É a maneira mais fácil de ter uma planta a dar flor em menos de um ano. 

Para quem gosta dos azuis metálicos, e para quem gosta de dar um ar naturalista ao jardim num clima como o de Portugal, a Echinops ritro e os seus cultivares são sempre plantas a considerar, dada a facilidade com que se adaptam e beleza das suas flores.