sábado, 22 de abril de 2017

Pelo Bosque em Kew

Erytronium e o templo de Aeolus ao fundo

Scilla e Corydalis / Erytronium "White Beauty" / Anemona blanda / Epimedium

Corydalis solida 

Polygonatum x hybridum

Fritillaria imperialis 

Anemone nemerosa e Uvularia grandiflora

Epimedium grandiflorum / Corydalis solida /Epimedium x younggianum 'Yenomoto'

Epimedium x perralchicum 'Frohnleiten'
                    
Epimedium e Hyacinthoides non-scripta

Dicentera formosa "Bacchanal" e Tiarella cordifolia

Corydalis e Scilla.
O bosque vive no imaginário do Homem, espaço de comunhão com a natureza e de partilha da condição de ser terreno com o reino vegetal. Uma chamada para as raízes da historia humana, de quando o nosso ancestral viveu o paraíso da selva, antes de se ter lançado na estepe africana. É pois bastante básica a necessidade de reclusão na floresta e o que nos chama a ela. E se é a floresta tropical a mais próxima do "paraíso", a mim interessa-me mais a floresta das latitudes setentrionais, que está hoje tão ameaçada quanto as tropicais, sobretudo em países como Portugal onde praticamente já não existe bosque autóctone. 

Mas o que tem a ver um bosque com o Jardim? A aproximação do jardim ao bosque terá razões profundas na sociedade europeia industrializada, que procurou algo tão simples como a recriação daquilo que parecia perder a cada dia: exactamente a possibilidade de conexão com a ancestralidade. E é sobretudo, quando o homem ocidental começa a sofrer as dores de alma da industrialização, que essa necessidade torna-se premente. O jardim passa a recriar cuidadosamente uma interpretação do bosque imaginário e os exemplos deste tipo de jardins começam a surgir, principalmente nos últimos 40 anos. Beth Chatto foi um dos primeiros autores a dedicar-se ao desenho de jardim na sombra e num cenário de bosque, o seu jardim em Colchester tem um excelente exemplo deste tipo de jardins. 

Mas, mais uma vez vamos ficar por Kew, as fotos são do início de Abril até ao domingo de Pascoa, quando visitei o "woodland garden". O jardim de bosque em Kew é bastante idealizado no sentido de mostrar a diversidade vegetal do bosque temperado de diferentes continentes. Neste jardim vamos descobrindo espécies de diferentes continentes, algumas nunca possíveis de encontrar lado a lado na natureza mas, que neste jardim podem, pois o jardineiro tomou nas mãos a tarefa do criador com o intuito de mostrar a flora com a melhor representatividade possível.  

Eis então que temos aqui em Kew, no mesmo jardim, Uvularia grandiflora e Epimedium, plantas com distribuição geográfica bem distinta e que nunca se poderiam encontrar num cenário natural. Membro da família Colchicaceae, a Uvularia é originaria dos Estados Unidos e pertence a uma família habituada à vida nos bosques, que inclui nos seus membros plantas como a Disporum, igualmente bastante usados neste tipo de jardins. O cultivo da Uvularia pode ser bastante difícil em zonas secas no Verão, sobretudo em solos pobres e pouco retentivos de humidade. Se olharmos às origens desta planta, vemos que tem preferência por bosque húmido de florestas de caducifolias. Já a Epimedium tem origem no Mediterrâneo e Extremo Oriente, presente em florestas temperadas ou bosque de montanha. No Japão têm sido usados em jardim desde há séculos, mas a Europa descobriu-os apenas já no século XIX, e nas ultimas décadas conheceram mesmo um crescendo de popularidade, sobretudo aqui no Reino Unido. Os Epimedium com origem no Mediterrâneo  podem aguentar melhor a sombra seca, sendo os resultados para este tipo de situação bastante mais positivos, do que para aqueles com origem nas zonas temperadas do Japão e China, dai que a Epimedium x perralderianum ou a E. alpium possam ser melhores que, por exemplo, E. grandiflorum e seus híbridos. De qualquer forma, em ambos os casos, os Epimedium revelam-se plantas bastante adaptáveis a situações de sombra seca depois de bem estabelecidos. 

E se o cultivo de Uvularia grandiflora em clima como o do Centro e Sul de Portugal possa ser verdadeiramente um desafio, já a Epimedium poderá fazer o jardineiro muito mais feliz: tenho conhecimento de um casos de cultivo bastante encorajador, vindo do jardim do Carlos no Cadaval, onde possivelmente se tenha cultivado este género  pela primeira vez no nosso país.

As folhas da Epimedium, em conjunto com as suas flores peculiares, poderão trazer interesse a áreas apagadas do jardim e elevar a plantação do estrato herbáceo tanto a nível textural como a nível de diversidade florística. 

Criar bosque, principalmente o idealizado, terá sempre que passar por um bom estrato herbáceo. Se as árvores e o estrato arbustivo são fundamentais como definição espacial e temática, quando se aproxima o jardim do bosque, é crucial pensar na plantação mais fina, o trabalho de estudo para a escolha de vivazes será sempre uma das fases mais importantes. E claro, voltando à ideia de construção de uma certa reclusão, necessária sempre ao efeito bosque, se se tiver a sorte de ter árvores maduras, então que se escolha esse mesmo local para o início de um "jardim-bosque". Se, por outro lado, não existir tal arvoredo e se tiver que começar do zero, o seu retiro no bosque primordial bem pode esperar! Por isso mesmo, comecemos já hoje a plantar a base do bosque: as árvores.    

 O jardim de bosque em Kew Gardens

sexta-feira, 31 de março de 2017

Passeio de Primavera em Kew.

Templo de Aeolus na área do jardim de bosque
   
Hacquetia epipactis

Chionodoxa sardensiss

Erythronium dens-canis

Tulipa clusiana

Corydalis cheilanthifolia

Scilla mischtschenkoana

Anemone hortensis

Primula vulgaris

Pulsatilla vulgaris

Pulsatilla e Muscari

Muscari aucheri

O jardim das rochas com a casa das alpinas ao fundo

Entrada no jardim da rainha, Narcissus  sp.  e Carpinus betulus

Hepatica transsilvanica

Jardim da rainha e canteiros de plantas medicinais 

Pulmunaria officinalis

Jardim da Rainha

Crocus vernus

Um passeio pelo Jardim Botânico de Kew num dia de Primavera, com a acrescida alegria de um dia de sol em Londres, um daquele momentos em que tudo é perfeito e quase sentimos culpa pelo acesso a tal graça. É claro que alguns vão apontar que o acesso a tanta beleza nunca é livre, há que pagar bilhete mas, devo-vos dizer que neste caso as melhores coisas da vida são mesmo grátis e eu entrei sem pagar.       

O passeio começou como tantas outras vezes no jardim do bosque, um dos meus sítios preferido em Kew, encimado no alto pelo templo de Aeolos, repleto de Narcissus e Crocus mas, já a dar lugar a belos tapetes de Chionodoxa que ficarão por mais umas semanas e mais tarde darão lugar à Anemone nemorosa e depois às famosas bluebells. Mas, não precisamos de colocar os olhos no futuro por agora, pois tantas são as jóias a admirar aqui e agora. Basta abrir os olhos. E eu olho-as sempre com os olhos ávidos da criança na loja de brinquedos.     

A primeira de que vos falo é a Hacquetia epipactis, uma planta da família Apiaceae que tem origens na montanhas da Europa Central, crescendo na orla de bosque muitas vezes acompanhada pela Helleborus. E se pensam que esta é mais uma historia de bolbos, desenganem-se, Hacquetia poderá lembrar um qualquer bolbo de primavera a olhares menos atentos mas, na verdade é uma vivaz de porte herbáceo, sendo a primeira de todas a vivazes a florir. Tal como muitas bolbosas de primavera, as inflorescências são de cor amarela, tornando-se curiosas pelo facto serem ornamentadas por brácteas de cor verde-lima. É uma planta particularmente bonita e é claro que quando me deparo com algo assim a primeira coisa que me vem à cabeça é "Será possível cultivar em Portugal?" Penso que sim, mas é algo exigente. Do que a Hacquetia gosta é de um solo fresco e bastante rico em matéria orgânica, algo nem sempre fácil de conseguir no jardim médio. Embora tenhamos do nosso lado a circunstancia de, tal como a Helleborus, preferir pH no lado alcalino ou neutro, que no meu caso e de muitos que fazem jardinagem no Centro de Portugal, é geralmente o que existe à mão.   

A próxima planta que destaco aqui não deveria ser uma desconhecida para os leitores portugueses, porque a temos na nossa flora mas,a verdade é que a grande maioria nunca lhe pós os olhos em cima. A não ser alguns felizardos que se tenham aventurado pelas serras do Norte do país, em matos de caducifólias, habitats cada vez mais raros, cuja destruição ameaçam as populações ainda existentes da Erythronium dens-canis.  A esta planta o povo chamou "dente de cão" e talvez já tenham sido abundante a pontos de lhe ter sido dado um nome comum tão apropriado, é que este geófito tem realmente um bolbo semelhante a um dente de canídeo. E os "dentes" da Erytronium estão bem cerrados em profundidade na terra e são de pequenas dimensões, desencorajando já aqui qualquer um que tenha tido a ideia tola de procurar por eles. Situação que, aliás, dá uma ideia das preferências deste bolbo, é que mais uma vez gosta de um solo profundo e rico, cheio de nutrientes e que não seca completamente no Verão. A semi-sombra de folhosas será o ideal. Embora se possa obter esta mesma planta com recurso a compra online, talvez seja melhor começar por alguns híbridos mais fáceis e com vigor, alguns deles são populares aqui Reino Unido, é o caso do "Pagoda" que também está representado em Kew Gardens.  


Seguindo o caminho do jardim de bosque vamos dar ao início de uma das zonas para as quais me dirijo sempre com expectativa e que é na verdade o meu jardim preferido em Kew: o jardim das rochas. O "rock garden", que é sempre um dos mais belos na Primavera e por entre Tulipa, Saxifraga apifera, Narcissus papyraceus, Euphorbia, Muscari, uma planta captou a minha atenção logo à entrada, a Corydalis cheilatifolia. Nativa da China como tantas outras Corydalis com valor ornamental, as folhas desta planta lembram um feto do género Cheilantes tal como o nome da espécie indica. Gosta de solos bem drenados, embora deva existir sempre alguma humidade e bastante matéria vegetal, tal como no habitat dos fetos cujas folhas esta planta faz lembrar. As Corydalis são da família das papoilas e lembram em muito a comum Fumaria officinalis.     

Mas, no final de Março a rainha do "rock garden" é na verdade a planta de que vou falar a seguir e na qual tenho focado grande atenção sempre que chegamos a esta altura do ano. Desde a primeira vez que a vi em Munique no belíssimo Alpium, esta planta da família Ranunculaceae não me sai da cabeça. É a Pulsatilla vulgaris, que nada tem de vulgar, muito pelo contrario, é uma das plantas mais belas que conheço e é distinta em tanta coisa que o só se explica o restritivo específico pela facilidade com que se encontra nas montanhas da Europa central. Aceita-se o comum, mas não o vulgar. Desde a cor ao porte, à sua natureza resíliente, ao facto de ser revestida de pelo quando desperta na Primavera, é uma planta distinta e em nada comum.   

Saindo do rock garden, subi em direcção ao jardim das gramíneas, que agora estão a despertar e já aparadas, passo o jardim de gravilha e depois chego a Kew Palace, onde fica o jardim da rainha. O palácio de kew  já foi residência do Rei Jorge IV que teve o reinado assolado por inúmeras maleitas, e que alojou-se aqui em para receber tratamento de plantas que na altura iam chegando a kew vindas de todo o império britânico. Os resultados foram muitas vezes piores que a própria enfermidade, as plantas não eram bem conhecidas, geralmente usadas mais com base na crença do que na ciência. Isto leva-nos à primeira planta que gostava de destacar nesta área: a Pulmunaria officinalis, uma planta do velho mundo, na altura o único remédio para doenças pulmonares. Os pulmões durante séculos foram a grande preocupação dos físicos na Europa, e claro está que ocasiões não faltaram para confirmar que um pulmão doente era tingido por colorações circulares no tecido afectado que lembravam a folha da Pulunaria e assim se começou a usar esta planta como remédio para as doenças relacionadas com este órgão vital. A Pulmunaria officinalis tem uma distribuição restrita em Portugal, prefere solos profundos e frescos, em bosques de florestas de folha caduca, que são aliás o habitat preferido desta espécie no resto da Europa. É amplamente usada em jardins hoje em dia, e o começo do seu uso nos jardins estará precisamente ligado à necessidade do seu uso na medicina. Hoje em dia, vários cultivares melhoraram o seu valor em jardins e diversificaram as formas disponíveis: 'Sissinghurst' e 'White and Blue Ensign' são alguns dos meus híbridos preferidos .   

E se a Pulmunaria tratava os pulmões porque o padrão nas suas folhas remete para o pulmão doente, a utilização da próxima planta tem também nas folhas a razão do seu uso. O recorte das folhas de uma Hepatica lembram realmente o fígado, logo a medicina arcaica da altura a tomou como recurso fundamental para as afecções hepáticas. H. nobilis é a espécie mais cultivada mas, a mim chamou-me à atenção a Hepatica transilvanica, maior e com mais vigor. As flores desta planta lembram as de uma anémona dos bosques, mas de alguma forma ainda mais belas. Hoje em dia quem se dedica a este género tem uma diversidade grande de formas para coleccionar. No Japão, tem sido cultivada desde há séculos e obtiveram-e magníficos cultivares de H. japonica, que continuam a fascinar coleccionadores que se perdem por estas plantas. No jardim aberto alguns cultivares têm melhor performance do que outros, mas será sempre necessário um solo alcalino, rico em matéria orgânica e que não seca totalmente durante a época mais quente do ano.     

O passeio terminou no gazebo do jardim da rainha, que os paisagistas colocaram numa pequena elevação depois dos jardins formais e do qual se pode admirar o Tamisa, que corre lento por detrás. Daqui continuei para a loja de Kew, onde abri cordões à bolsa e comprei uma daquelas planta que chamava muito por mim. Teve que ser. Não paguei entrada mas, o dinheiro acabou por ser gasto, porque ainda não oferecem plantas nos Kew Gardens e depois de tanta beleza só queremos levar uma (pequena) parte para nós.     


quarta-feira, 22 de março de 2017

Helleborus em Kew Gardens

Helleborus x orientalis e Scilla siberica no jardim de bosque

Helleborus atrorubens no "rock garden"

Helleborus bocconei ssp. siculus

Helleborus x hybridus no jardim de bosque

Helleborus argutifolius

Helleborus multifidus

Helleborus foetidos, erva-besteira 

Helleborus vesicarius

Helleborus x hybridus em kew gardens


A primeira vez que vi um Helleborus foi numa publicação em fascículos coleccionáveis sobre plantas de interior e flores de corte que vinham com o JN na edição de domingo, isto há muitos anos, era eu adolescente ainda. Lembro-me de ficar intrigado com a aparência daquela flor, alguma coisa naquele formato era-me bastante estranho e ao mesmo tempo chamava à atenção. Recordo de logo na altura achar que nunca tinha visto algo semelhante e de assumir que não seria possível o cultivo desta planta em Portugal.   

O contacto seguinte com a Helleborus foi já na faculdade, durante as aulas de biologia vegetal. Lembro-me de existir uma estampa da nativa Helleborus foetidus nas projecções das aulas, enquadrada nas classificações das famílias. Mas, em nada a bela imagem da H. foetidos me fez reportar àquela planta que tinha visto no JN e foi só quando visitei há uns anos atrás o jardim botânico de Colónia na Alemanha que finalmente houve um nome para dar à bela planta do meu passado: era uma Helleborus também! Mais precisamente um híbrido de Helleborus orientalis.  

Estavam ali à minha frente, de imediato vieram à memoria as folhas do JN e da sua edição de Flores de Corte, eram aquelas mesmas flores que durante anos me tinham intrigado e das quais nem sabia o nome. E muito perto destas, um belo exemplar de H. foetidos. Como era possível que nunca tivesse relacionado as duas espécies antes? Sempre achei que tinha uma certa intuição para associar plantas da mesma família. 

A razão poder ter resposta nos meus limitados conhecimentos de sistemática na altura, mas acho que a botânica particular deste Género ajudou na minha confusão. Enquanto as H. foetidus é uma espécie caulescente, isto é, as folhas crescem a partir de um caule, a H. orientalis pertence ao grupo acaulescente, em que as folhas têm crescimento basal a partir do rizoma. Mas, penso que terá sido a própria flor a causar maior confusão. Na H. foetidos as flores têm forma de uma pequena taça invertida, sendo as sépalas de cor verde-lima e nada têm a ver com a dos híbridos de H. orientais. Nesta espécie, as flores chegam a parecer uma rosa singela, tal a modificação das suas sépalas no sentido daquilo que conhecemos como verdadeiras pétalas. Aliás, o nome nos países onde são comuns é "rosa da quaresma", dando ideia de flores atraentes, ao contrario da H. foetidos para a qual estavam reservados nomes comuns bem menos lisonjeadores.  

O meu encantamento pela Helleborus, embora venha de longe, não se esgotou com o tempo, pelo contrario, é das plantas que mais prazer me dá cultivar no jardim e é sempre com algum espanto que a vejo despertar no início do Inverno. As suas hastes florais desdobram-se gordas à superfície da terra e prometem cedo o espectáculo que lá para Fevereiro estará em pleno. Toda a planta é atraente mas, é o habito ligeiramente pendente da haste floral, encimada pelas brácteas folhosas que o tornam tão especial e que a mim me cativaram. É realmente fascinante ter a oportunidade de as cultivar no meu jardim.   

Mas nem sempre foi assim. Ainda antes de ter uma destas plantas já acreditava que não se podiam cultivar em solo português, alguns exemplos vieram mostrar o contrario e aos poucos o mito de planta difícil foi desaparecendo. A prova final veio a partir do momento que as comecei a cultivar e com resultados logo muito encorajadores. Ali estavam elas a florir à minha frente, mas desta vez no meu próprio jardim! Quantos anos depois daquele primeira foto no JN? Não faço ideia, mas muitos mesmo.  

Os híbridos que tenho são o comum "Pretty Ellen", híbridos do H. orientalis, cujo tipo selvagem tem flor verde mais simples e do qual se têm vindo a obter uma vasta variedade de cores e formas.  Mas, quem gosta disto das plantas, quer sempre ir às origens e foi com essas intenção que me desloquei a Kew: queria ver o mais possível espécies de Helleborus. E lá estavam algumas, cada uma com o seu encantamento próprio, ou fosse pelas flores verdes com sépalas desenvolvidas ou pelo habito acaulescente com as flores surgindo do solo. Este tipo de haste floral remete para uma certa resiliência e rusticidade. Lembram os sítios de onde são autóctones, bosque de montanha, orlas de florestas antigas e de alguma forma prendem a minha imaginação nesses mesmos sítios. Sítios nada longínquos até: quase todas as espécies são europeias e apenas uma asiática. Algumas são transalpinas, outras dos Balcãs, centro europeias, da Europa Ocidental e até ibéricas. E nesta lotaria das espécies apenas nos calhou a Helleborus foetidos

Das espécies representadas em Kew, destaco H. atrorubens da Croácia e Eslovénia; H. bocconei do sul de Itália, tem as inflorescências verdes e folhas bastante lanceoladas, acaulescente. H. multificus, dos Balcãs, cujo restritivo específico refere-se às folhas bastante recortadas, que chegam a lembrar uma pequena palmeira. H. versicarius é parecido com H. foetidos mas, a sua distribuição é bastante afastada geograficamente, restringindo-se ao Este da Turquia e Norte da Síria. H. argutifolios, mais uma espécie  mediterrânica, nativa das montanhas da Córsega e Sicília. É caulescente e é também a espécie de maior dimensão de todos os Helleborus. Tem um porte elegante e é amplamente usado em jardins.  


Podem aparecer na Europa meridional até à Central e depois para a Síria e China onde está representado pela H. tibetanus mas, todos os Helleborus têm com uma coisa em comum, a preferência por um solo alcalino, quase sempre ligados a maciços calcários. No jardim botânico de Kew quase todos podem ser vistos no "rock garden". 


http://www.helleborus.de/en/things-to-know/distribution/
http://flora-on.pt/#/1Helleborus
https://carolynsshadegardens.com/tag/helleborus-multifidus-subsp-hercegovinus/

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Início da Primavera em Londres

Crocus sp


Galanthus nivalis

Galanthus nivalis

Galanthus nivalis

Galanthus / Helleborus 'Spring Promisse' / Helleborus 'Harvington Red'

Helleborus 'Viv Victoria'
Narcissus cyclamineus

A Primavera está por aí e os dias crescem em Londres. Os jardins ganham aos poucos cor mas, os meus pensamentos estão em Portugal e no meu jardim em particular. Tenho tido noticias, mas faltam as fotos para ajudar a matar saudades...ou melhor, faltam os cheiros, a luz. Falta-me atravessar o portão e tactear os canteiros à procura de cada planta.  Falta-me, porque é meu e é o único jardim que tenho. É difícil imaginar o quanto um pequeno pedaço de terra meridional se pode fazer transportar e ocupar a mente, o pensamento de um homem que vive longe. Um pedaço de terra, que nem sempre foi jardim, e que quase continua a não ser. Antes foi quintal, depois horta e hoje é um jardim suspenso: idealizado, inacabado, acima de tudo uma ideia, que veio a tomar forma e que tomou conta de tanto do que sou. E mesmo eu estando longe, nas terras do Norte, não deixa nunca de estar presente.

O Jardim Suspenso nuca foi tão suspenso como é hoje. As circunstancias ditam o afastamento do seu jardineiro, que se dedica agora a admirar as plantas dos outros. Plantas estranhas aos olhos portugueses, de uma terra alheia, como aquelas a que chamam "snowdrops", Galanthus nivalis para os entendidos, e que é aqui tão comum, quanto o é uma esteva nas serras de Portugal. Plantas estranhas, que relembram ao jardineiro todos os dias, que vive longe e que o jardim já não fica nas traseiras de casa, fica num outro país, à distancia de meses.  

Quando comecei este blog, estava longe de imaginar que um dia o seu nome faria tanto sentido como hoje. É difícil viver um jardim suspenso: os jardins precisam de cuidado diário, a distancia impõem-se e um jardim não vive de memorias. Talvez o nome mais adequado para este blogue fosse hoje "O Jardineiro Ausente", o nome parece assentar que nem uma luva a um jardim que se vai fazendo à distancia e em folhas de papel, desenhado e projectado mil vezes, mas nem por isso mais próximo. 

O jardineiro está longe mas, não só o jardineiro vive desterrado. Por aqui vive há muito mais tempo uma planta do Sul, a Narcissus cyclamineus. Na verdade é-me difícil imagina-la como uma planta do sul, porque toda a vida a considerei uma planta do Norte: é autóctone no Norte de Portugal onde tem duas populações principais , uma no rio Coura e outra no rio Teixeira. É uma planta do norte do Sul e onde vive hoje, acima do paralelo 50, são bastante apreciadas, mais até que no seu próprio país, onde não passam de ilustres desconhecidas. 

Mas, não é por estarem longe que os Narcissus cyclamineus deixam de anunciar o final do Inverno, tal como as Galanthus, também elas plantas emigrantes, oriundas da Europa Central. Estas duas plantas da mesma família estão entre as primeiras a florir, dedicando-se ao anuncio do início da estação vernal. Fazem-no, no entanto de forma diferente, em vez de se vestirem de branco como a neve, a N. cyclamineus veste-se de amarelo como o sol do país do Sul. Ambas tímidas ainda, apontam a sua corola ao chão, sinal de que em terras lusas pode chover tanto nos meses de invernia, quanto nas terras do Norte. 

E foi assim, por acaso, que neste país ilha, amante de tudo quanto é botânico, que se juntaram Galanthus nivalis e Narcisus cyclamineos, plantas de origens geográficas diferentes mas, muitas vezes aparecendo lado a lado nessa coisa muito britânica que são os rock gardens. Num dia de Fevereiro podem-se ver os dois brilhar, fazendo as alegrias dos jardineiros do país do Norte e também do jardineiro ausente, ambos sedentos de cor no final do Inverno. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

De Fevereiro...

 O jardim em Fevereiro 2016
Helleborus "pretty  Ellen"

 Helleborus x hybridus no Botânico da Ajuda 2016

Leucojum aestivum no meu jardim 2016
 Vista do jardim em Fevereiro de 2016


As fotos são todas do ano passado, mas ilustram bem o que pode ser Fevereiro num jardim em Portugal. Se a geada não foi forte, ou se se vive num sitio sem geadas, podemos já começar a apreciar as renovadas texturas vegetais à medida que as plantas iniciam o seu novo ciclo vegetativo. Se por outro lado, as geadas fizeram estragos. com ajuda das chuvas, daqui a poucas semanas podemos ter o jardim em força e totalmente renovado.

Nesta altura, os primeiros Narcissus, Crocus e Leucojum começam a florir. Dependendo dos anos, Fevereiro marca de certa forma o início da época dos bolbos de Primavera. Falemos, por exemplo, do Leucojum aestivum, um pequeno bolbo da mesma família do narciso, que é nativo da Europa Central ao Médio Oriente. Devem ser tratados basicamente como os Narcissus, qualquer solo com boa drenagem e relativamente rico serve para o cultivo destas plantas. São fáceis de manter e aumentam de numero rapidamente com o tempo. Os meus vieram do Algarve, oferecidos por uma amigo blogger e desde então já formam um maciço apreciável e com várias hastes florais, segundo os últimos relatos que me chegaram.  

Os Helleborus haviam já iniciado no mês anterior mas, é em Fevereiro que se encontram em plena Floração. Nas fotos estão dois belos exemplares de Helleborus, ilustrando bem o quanto podem fazer num jardim de Primavera. Alguns cultivares são mais floríferos do que outros, o das fotos, que está no jardim botânicos da Ajuda, é dos que conheço, aquele que apresenta as melhores florações. O período de floração é bastante longo e a planta mantêm um certo interesse durante pelo menos mais um mês, já que as sépalas são retidas pela haste floral mesmo depois da semente estar formada. Este facto reveste-se de uma certa importância na biologia do Helleborus, estudos indicam que a persistência das sépalas é importante  no desenvolvimento da semente. Os Helleborus que existem na Ajuda são particularmente prolíferos nesta matéria, produzindo muita semente fértil e pelo Outono é possível verificar a existência de centenas de pequenas plantulas na base da planta mãe. 
  
http://www.amjbot.org/content/92/9/1486