sexta-feira, 31 de março de 2017

Passeio de Primavera em Kew.

Templo de Aeolus na área do jardim de bosque
   
Hacquetia epipactis

Chionodoxa sardensiss

Erythronium dens-canis

Tulipa clusiana

Corydalis cheilanthifolia

Scilla mischtschenkoana

Anemone hortensis

Primula vulgaris

Pulsatilla vulgaris

Pulsatilla e Muscari

Muscari aucheri

O jardim das rochas com a casa das alpinas ao fundo

Entrada no jardim da rainha, Narcissus  sp.  e Carpinus betulus

Hepatica transsilvanica

Jardim da rainha e canteiros de plantas medicinais 

Pulmunaria officinalis

Jardim da Rainha

Crocus vernus

Um passeio pelo Jardim Botânico de Kew num dia de Primavera, com a acrescida alegria de um dia de sol em Londres, um daquele momentos em que tudo é perfeito e quase sentimos culpa pelo acesso a tal graça. É claro que alguns vão apontar que o acesso a tanta beleza nunca é livre, há que pagar bilhete mas, devo-vos dizer que neste caso as melhores coisas da vida são mesmo grátis e eu entrei sem pagar.       

O passeio começou como tantas outras vezes no jardim do bosque, um dos meus sítios preferido em Kew, encimado no alto pelo templo de Aeolos, repleto de Narcissus e Crocus mas, já a dar lugar a belos tapetes de Chionodoxa que ficarão por mais umas semanas e mais tarde darão lugar à Anemone nemorosa e depois às famosas bluebells. Mas, não precisamos de colocar os olhos no futuro por agora, pois tantas são as jóias a admirar aqui e agora. Basta abrir os olhos. E eu olho-as sempre com os olhos ávidos da criança na loja de brinquedos.     

A primeira de que vos falo é a Hacquetia epipactis, uma planta da família Apiaceae que tem origens na montanhas da Europa Central, crescendo na orla de bosque muitas vezes acompanhada pela Helleborus. E se pensam que esta é mais uma historia de bolbos, desenganem-se, Hacquetia poderá lembrar um qualquer bolbo de primavera a olhares menos atentos mas, na verdade é uma vivaz de porte herbáceo, sendo a primeira de todas a vivazes a florir. Tal como muitas bolbosas de primavera, as inflorescências são de cor amarela, tornando-se curiosas pelo facto serem ornamentadas por brácteas de cor verde-lima. É uma planta particularmente bonita e é claro que quando me deparo com algo assim a primeira coisa que me vem à cabeça é "Será possível cultivar em Portugal?" Penso que sim, mas é algo exigente. Do que a Hacquetia gosta é de um solo fresco e bastante rico em matéria orgânica, algo nem sempre fácil de conseguir no jardim médio. Embora tenhamos do nosso lado a circunstancia de, tal como a Helleborus, preferir pH no lado alcalino ou neutro, que no meu caso e de muitos que fazem jardinagem no Centro de Portugal, é geralmente o que existe à mão.   

A próxima planta que destaco aqui não deveria ser uma desconhecida para os leitores portugueses, porque a temos na nossa flora mas,a verdade é que a grande maioria nunca lhe pós os olhos em cima. A não ser alguns felizardos que se tenham aventurado pelas serras do Norte do país, em matos de caducifólias, habitats cada vez mais raros, cuja destruição ameaçam as populações ainda existentes da Erythronium dens-canis.  A esta planta o povo chamou "dente de cão" e talvez já tenham sido abundante a pontos de lhe ter sido dado um nome comum tão apropriado, é que este geófito tem realmente um bolbo semelhante a um dente de canídeo. E os "dentes" da Erytronium estão bem cerrados em profundidade na terra e são de pequenas dimensões, desencorajando já aqui qualquer um que tenha tido a ideia tola de procurar por eles. Situação que, aliás, dá uma ideia das preferências deste bolbo, é que mais uma vez gosta de um solo profundo e rico, cheio de nutrientes e que não seca completamente no Verão. A semi-sombra de folhosas será o ideal. Embora se possa obter esta mesma planta com recurso a compra online, talvez seja melhor começar por alguns híbridos mais fáceis e com vigor, alguns deles são populares aqui Reino Unido, é o caso do "Pagoda" que também está representado em Kew Gardens.  


Seguindo o caminho do jardim de bosque vamos dar ao início de uma das zonas para as quais me dirijo sempre com expectativa e que é na verdade o meu jardim preferido em Kew: o jardim das rochas. O "rock garden", que é sempre um dos mais belos na Primavera e por entre Tulipa, Saxifraga apifera, Narcissus papyraceus, Euphorbia, Muscari, uma planta captou a minha atenção logo à entrada, a Corydalis cheilatifolia. Nativa da China como tantas outras Corydalis com valor ornamental, as folhas desta planta lembram um feto do género Cheilantes tal como o nome da espécie indica. Gosta de solos bem drenados, embora deva existir sempre alguma humidade e bastante matéria vegetal, tal como no habitat dos fetos cujas folhas esta planta faz lembrar. As Corydalis são da família das papoilas e lembram em muito a comum Fumaria officinalis.     

Mas, no final de Março a rainha do "rock garden" é na verdade a planta de que vou falar a seguir e na qual tenho focado grande atenção sempre que chegamos a esta altura do ano. Desde a primeira vez que a vi em Munique no belíssimo Alpium, esta planta da família Ranunculaceae não me sai da cabeça. É a Pulsatilla vulgaris, que nada tem de vulgar, muito pelo contrario, é uma das plantas mais belas que conheço e é distinta em tanta coisa que o só se explica o restritivo específico pela facilidade com que se encontra nas montanhas da Europa central. Aceita-se o comum, mas não o vulgar. Desde a cor ao porte, à sua natureza resíliente, ao facto de ser revestida de pelo quando desperta na Primavera, é uma planta distinta e em nada comum.   

Saindo do rock garden, subi em direcção ao jardim das gramíneas, que agora estão a despertar e já aparadas, passo o jardim de gravilha e depois chego a Kew Palace, onde fica o jardim da rainha. O palácio de kew  já foi residência do Rei Jorge IV que teve o reinado assolado por inúmeras maleitas, e que alojou-se aqui em para receber tratamento de plantas que na altura iam chegando a kew vindas de todo o império britânico. Os resultados foram muitas vezes piores que a própria enfermidade, as plantas não eram bem conhecidas, geralmente usadas mais com base na crença do que na ciência. Isto leva-nos à primeira planta que gostava de destacar nesta área: a Pulmunaria officinalis, uma planta do velho mundo, na altura o único remédio para doenças pulmonares. Os pulmões durante séculos foram a grande preocupação dos físicos na Europa, e claro está que ocasiões não faltaram para confirmar que um pulmão doente era tingido por colorações circulares no tecido afectado que lembravam a folha da Pulunaria e assim se começou a usar esta planta como remédio para as doenças relacionadas com este órgão vital. A Pulmunaria officinalis tem uma distribuição restrita em Portugal, prefere solos profundos e frescos, em bosques de florestas de folha caduca, que são aliás o habitat preferido desta espécie no resto da Europa. É amplamente usada em jardins hoje em dia, e o começo do seu uso nos jardins estará precisamente ligado à necessidade do seu uso na medicina. Hoje em dia, vários cultivares melhoraram o seu valor em jardins e diversificaram as formas disponíveis: 'Sissinghurst' e 'White and Blue Ensign' são alguns dos meus híbridos preferidos .   

E se a Pulmunaria tratava os pulmões porque o padrão nas suas folhas remete para o pulmão doente, a utilização da próxima planta tem também nas folhas a razão do seu uso. O recorte das folhas de uma Hepatica lembram realmente o fígado, logo a medicina arcaica da altura a tomou como recurso fundamental para as afecções hepáticas. H. nobilis é a espécie mais cultivada mas, a mim chamou-me à atenção a Hepatica transilvanica, maior e com mais vigor. As flores desta planta lembram as de uma anémona dos bosques, mas de alguma forma ainda mais belas. Hoje em dia quem se dedica a este género tem uma diversidade grande de formas para coleccionar. No Japão, tem sido cultivada desde há séculos e obtiveram-e magníficos cultivares de H. japonica, que continuam a fascinar coleccionadores que se perdem por estas plantas. No jardim aberto alguns cultivares têm melhor performance do que outros, mas será sempre necessário um solo alcalino, rico em matéria orgânica e que não seca totalmente durante a época mais quente do ano.     

O passeio terminou no gazebo do jardim da rainha, que os paisagistas colocaram numa pequena elevação depois dos jardins formais e do qual se pode admirar o Tamisa, que corre lento por detrás. Daqui continuei para a loja de Kew, onde abri cordões à bolsa e comprei uma daquelas planta que chamava muito por mim. Teve que ser. Não paguei entrada mas, o dinheiro acabou por ser gasto, porque ainda não oferecem plantas nos Kew Gardens e depois de tanta beleza só queremos levar uma (pequena) parte para nós.     


quarta-feira, 22 de março de 2017

Helleborus em Kew Gardens

Helleborus x orientalis e Scilla siberica no jardim de bosque

Helleborus atrorubens no "rock garden"

Helleborus bocconei ssp. siculus

Helleborus x hybridus no jardim de bosque

Helleborus argutifolius

Helleborus multifidus

Helleborus foetidos, erva-besteira 

Helleborus vesicarius

Helleborus x hybridus em kew gardens


A primeira vez que vi um Helleborus foi numa publicação em fascículos coleccionáveis sobre plantas de interior e flores de corte que vinham com o JN na edição de domingo, isto há muitos anos, era eu adolescente ainda. Lembro-me de ficar intrigado com a aparência daquela flor, alguma coisa naquele formato era-me bastante estranho e ao mesmo tempo chamava à atenção. Recordo de logo na altura achar que nunca tinha visto algo semelhante e de assumir que não seria possível o cultivo desta planta em Portugal.   

O contacto seguinte com a Helleborus foi já na faculdade, durante as aulas de biologia vegetal. Lembro-me de existir uma estampa da nativa Helleborus foetidus nas projecções das aulas, enquadrada nas classificações das famílias. Mas, em nada a bela imagem da H. foetidos me fez reportar àquela planta que tinha visto no JN e foi só quando visitei há uns anos atrás o jardim botânico de Colónia na Alemanha que finalmente houve um nome para dar à bela planta do meu passado: era uma Helleborus também! Mais precisamente um híbrido de Helleborus orientalis.  

Estavam ali à minha frente, de imediato vieram à memoria as folhas do JN e da sua edição de Flores de Corte, eram aquelas mesmas flores que durante anos me tinham intrigado e das quais nem sabia o nome. E muito perto destas, um belo exemplar de H. foetidos. Como era possível que nunca tivesse relacionado as duas espécies antes? Sempre achei que tinha uma certa intuição para associar plantas da mesma família. 

A razão poder ter resposta nos meus limitados conhecimentos de sistemática na altura, mas acho que a botânica particular deste Género ajudou na minha confusão. Enquanto as H. foetidus é uma espécie caulescente, isto é, as folhas crescem a partir de um caule, a H. orientalis pertence ao grupo acaulescente, em que as folhas têm crescimento basal a partir do rizoma. Mas, penso que terá sido a própria flor a causar maior confusão. Na H. foetidos as flores têm forma de uma pequena taça invertida, sendo as sépalas de cor verde-lima e nada têm a ver com a dos híbridos de H. orientais. Nesta espécie, as flores chegam a parecer uma rosa singela, tal a modificação das suas sépalas no sentido daquilo que conhecemos como verdadeiras pétalas. Aliás, o nome nos países onde são comuns é "rosa da quaresma", dando ideia de flores atraentes, ao contrario da H. foetidos para a qual estavam reservados nomes comuns bem menos lisonjeadores.  

O meu encantamento pela Helleborus, embora venha de longe, não se esgotou com o tempo, pelo contrario, é das plantas que mais prazer me dá cultivar no jardim e é sempre com algum espanto que a vejo despertar no início do Inverno. As suas hastes florais desdobram-se gordas à superfície da terra e prometem cedo o espectáculo que lá para Fevereiro estará em pleno. Toda a planta é atraente mas, é o habito ligeiramente pendente da haste floral, encimada pelas brácteas folhosas que o tornam tão especial e que a mim me cativaram. É realmente fascinante ter a oportunidade de as cultivar no meu jardim.   

Mas nem sempre foi assim. Ainda antes de ter uma destas plantas já acreditava que não se podiam cultivar em solo português, alguns exemplos vieram mostrar o contrario e aos poucos o mito de planta difícil foi desaparecendo. A prova final veio a partir do momento que as comecei a cultivar e com resultados logo muito encorajadores. Ali estavam elas a florir à minha frente, mas desta vez no meu próprio jardim! Quantos anos depois daquele primeira foto no JN? Não faço ideia, mas muitos mesmo.  

Os híbridos que tenho são o comum "Pretty Ellen", híbridos do H. orientalis, cujo tipo selvagem tem flor verde mais simples e do qual se têm vindo a obter uma vasta variedade de cores e formas.  Mas, quem gosta disto das plantas, quer sempre ir às origens e foi com essas intenção que me desloquei a Kew: queria ver o mais possível espécies de Helleborus. E lá estavam algumas, cada uma com o seu encantamento próprio, ou fosse pelas flores verdes com sépalas desenvolvidas ou pelo habito acaulescente com as flores surgindo do solo. Este tipo de haste floral remete para uma certa resiliência e rusticidade. Lembram os sítios de onde são autóctones, bosque de montanha, orlas de florestas antigas e de alguma forma prendem a minha imaginação nesses mesmos sítios. Sítios nada longínquos até: quase todas as espécies são europeias e apenas uma asiática. Algumas são transalpinas, outras dos Balcãs, centro europeias, da Europa Ocidental e até ibéricas. E nesta lotaria das espécies apenas nos calhou a Helleborus foetidos

Das espécies representadas em Kew, destaco H. atrorubens da Croácia e Eslovénia; H. bocconei do sul de Itália, tem as inflorescências verdes e folhas bastante lanceoladas, acaulescente. H. multificus, dos Balcãs, cujo restritivo específico refere-se às folhas bastante recortadas, que chegam a lembrar uma pequena palmeira. H. versicarius é parecido com H. foetidos mas, a sua distribuição é bastante afastada geograficamente, restringindo-se ao Este da Turquia e Norte da Síria. H. argutifolios, mais uma espécie  mediterrânica, nativa das montanhas da Córsega e Sicília. É caulescente e é também a espécie de maior dimensão de todos os Helleborus. Tem um porte elegante e é amplamente usado em jardins.  


Podem aparecer na Europa meridional até à Central e depois para a Síria e China onde está representado pela H. tibetanus mas, todos os Helleborus têm com uma coisa em comum, a preferência por um solo alcalino, quase sempre ligados a maciços calcários. No jardim botânico de Kew quase todos podem ser vistos no "rock garden". 


http://www.helleborus.de/en/things-to-know/distribution/
http://flora-on.pt/#/1Helleborus
https://carolynsshadegardens.com/tag/helleborus-multifidus-subsp-hercegovinus/