Helleborus em Kew Gardens

Helleborus x orientalis e Scilla siberica no jardim de bosque

Helleborus atrorubens no "rock garden"

Helleborus bocconei ssp. siculus

Helleborus x hybridus no jardim de bosque

Helleborus argutifolius

Helleborus multifidus

Helleborus foetidos, erva-besteira 

Helleborus vesicarius

Helleborus x hybridus em kew gardens


A primeira vez que vi um Helleborus foi numa publicação em fascículos coleccionáveis sobre plantas de interior e flores de corte que vinham com o JN na edição de domingo, isto há muitos anos, era eu adolescente ainda. Lembro-me de ficar intrigado com a aparência daquela flor, alguma coisa naquele formato era-me bastante estranho e ao mesmo tempo chamava à atenção. Recordo de logo na altura achar que nunca tinha visto algo semelhante e de assumir que não seria possível o cultivo desta planta em Portugal.   

O contacto seguinte com a Helleborus foi já na faculdade, durante as aulas de biologia vegetal. Lembro-me de existir uma estampa da nativa Helleborus foetidus nas projecções das aulas, enquadrada nas classificações das famílias. Mas, em nada a bela imagem da H. foetidos me fez reportar àquela planta que tinha visto no JN e foi só quando visitei há uns anos atrás o jardim botânico de Colónia na Alemanha que finalmente houve um nome para dar à bela planta do meu passado: era uma Helleborus também! Mais precisamente um híbrido de Helleborus orientalis.  

Estavam ali à minha frente, de imediato vieram à memoria as folhas do JN e da sua edição de Flores de Corte, eram aquelas mesmas flores que durante anos me tinham intrigado e das quais nem sabia o nome. E muito perto destas, um belo exemplar de H. foetidos. Como era possível que nunca tivesse relacionado as duas espécies antes? Sempre achei que tinha uma certa intuição para associar plantas da mesma família. 

A razão poder ter resposta nos meus limitados conhecimentos de sistemática na altura, mas acho que a botânica particular deste Género ajudou na minha confusão. Enquanto as H. foetidus é uma espécie caulescente, isto é, as folhas crescem a partir de um caule, a H. orientalis pertence ao grupo acaulescente, em que as folhas têm crescimento basal a partir do rizoma. Mas, penso que terá sido a própria flor a causar maior confusão. Na H. foetidos as flores têm forma de uma pequena taça invertida, sendo as sépalas de cor verde-lima e nada têm a ver com a dos híbridos de H. orientais. Nesta espécie, as flores chegam a parecer uma rosa singela, tal a modificação das suas sépalas no sentido daquilo que conhecemos como verdadeiras pétalas. Aliás, o nome nos países onde são comuns é "rosa da quaresma", dando ideia de flores atraentes, ao contrario da H. foetidos para a qual estavam reservados nomes comuns bem menos lisonjeadores.  

O meu encantamento pela Helleborus, embora venha de longe, não se esgotou com o tempo, pelo contrario, é das plantas que mais prazer me dá cultivar no jardim e é sempre com algum espanto que a vejo despertar no início do Inverno. As suas hastes florais desdobram-se gordas à superfície da terra e prometem cedo o espectáculo que lá para Fevereiro estará em pleno. Toda a planta é atraente mas, é o habito ligeiramente pendente da haste floral, encimada pelas brácteas folhosas que o tornam tão especial e que a mim me cativaram. É realmente fascinante ter a oportunidade de as cultivar no meu jardim.   

Mas nem sempre foi assim. Ainda antes de ter uma destas plantas já acreditava que não se podiam cultivar em solo português, alguns exemplos vieram mostrar o contrario e aos poucos o mito de planta difícil foi desaparecendo. A prova final veio a partir do momento que as comecei a cultivar e com resultados logo muito encorajadores. Ali estavam elas a florir à minha frente, mas desta vez no meu próprio jardim! Quantos anos depois daquele primeira foto no JN? Não faço ideia, mas muitos mesmo.  

Os híbridos que tenho são o comum "Pretty Ellen", híbridos do H. orientalis, cujo tipo selvagem tem flor verde mais simples e do qual se têm vindo a obter uma vasta variedade de cores e formas.  Mas, quem gosta disto das plantas, quer sempre ir às origens e foi com essas intenção que me desloquei a Kew: queria ver o mais possível espécies de Helleborus. E lá estavam algumas, cada uma com o seu encantamento próprio, ou fosse pelas flores verdes com sépalas desenvolvidas ou pelo habito acaulescente com as flores surgindo do solo. Este tipo de haste floral remete para uma certa resiliência e rusticidade. Lembram os sítios de onde são autóctones, bosque de montanha, orlas de florestas antigas e de alguma forma prendem a minha imaginação nesses mesmos sítios. Sítios nada longínquos até: quase todas as espécies são europeias e apenas uma asiática. Algumas são transalpinas, outras dos Balcãs, centro europeias, da Europa Ocidental e até ibéricas. E nesta lotaria das espécies apenas nos calhou a Helleborus foetidos

Das espécies representadas em Kew, destaco H. atrorubens da Croácia e Eslovénia; H. bocconei do sul de Itália, tem as inflorescências verdes e folhas bastante lanceoladas, acaulescente. H. multificus, dos Balcãs, cujo restritivo específico refere-se às folhas bastante recortadas, que chegam a lembrar uma pequena palmeira. H. versicarius é parecido com H. foetidos mas, a sua distribuição é bastante afastada geograficamente, restringindo-se ao Este da Turquia e Norte da Síria. H. argutifolios, mais uma espécie  mediterrânica, nativa das montanhas da Córsega e Sicília. É caulescente e é também a espécie de maior dimensão de todos os Helleborus. Tem um porte elegante e é amplamente usado em jardins.  


Podem aparecer na Europa meridional até à Central e depois para a Síria e China onde está representado pela H. tibetanus mas, todos os Helleborus têm com uma coisa em comum, a preferência por um solo alcalino, quase sempre ligados a maciços calcários. No jardim botânico de Kew quase todos podem ser vistos no "rock garden". 


http://www.helleborus.de/en/things-to-know/distribution/
http://flora-on.pt/#/1Helleborus
https://carolynsshadegardens.com/tag/helleborus-multifidus-subsp-hercegovinus/

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