quinta-feira, 31 de março de 2016

Incursão Botânica no Oeste

Alcobaça
Nas recentes Ferias da Pascoa visitei Alcobaça e a região Oeste com o intuito de conhecer alguns dos sítios de interesse turístico,  mas rapidamente o meu passeio tornou-se numa visita de reconhecimento botânico, tal foi a quantidade de espécies com as quais me fui deparando. Talvez porque a Pascoa este ano se comemorou mais cedo, a época de floração de algumas das minhas bolbosas preferidas coincidiu com a oportunidade de me deslocar aos sítios onde elas ocorrem. Sabia que as podia encontrar, mas nunca pensei que existissem em tão grande numero e em anos anteriores não tinha sido possível encontra-las em plena floração. Comecemos então por Alcobaça: 

Hyacinthoides hispanica
Hyacinthoides hispanica, castelo de Alcobaça
Hyacinthoides hispanica
Hyacinthoides hispanica em Alcobaça
                                                                
Em Alcobaça, descobri por acaso a Hyacinthoides hispanica numa das escarpas do castelo. Foi na verdade uma grande surpresa, sabia que a espécie existia na região mas nunca pensei encontra-la em pleno centro histórico e em tão grande numero. A colónia parece estar bem estabelecida e aprecia a excelente drenagem do sítio bem como toda a humidade disponível. Hyacinthoides hispanica é uma planta da família dos espargos conhecida como Jacinto-dos-campos. É muito ornamental e é usada em jardins noutras latitudes, nomeadamente, no Reino Unido, onde se começou a cruzar com a Hyacinthoides non-scripta, a famosa bluebells. Neste momento a planta de origem ibérica constitui uma ameaça os bluebells locais, existindo já muitas populações de características intermédias. Existem 4 espécies de Hyacinthoides em Portugal (incluindo H. non-scripta confinado ao extremo Norte do país) todas elas com grande interesse ornamental, podem ser comparadas aqui

Juniperus turbinata em São Martinho do Porto
Cistus salviifolius / Orphys 
Em são Martinho do Porto ao andar pelas encostas junto ao mar foi possível encontrar vários indivíduos de orquídeas do género Orphys, bem como Cistus, os quais estavam a iniciar floração. Mas o destaque vai para os Narcissus bulbocodium e Rumulea, duas bulbosas de grande interesse ornamental.  As duas plantas partilham o mesmo epíteto "bulbocodium", que significa pequeno bolbo, e é isso mesmo que são, pequenas, mas de grande beleza. A Narcissus bulbocodium pode ser facilmente cultivada em jardins, no entanto exige boa drenagem e solo de origem calcaria. Esta espécie de narciso apresenta uma morfologia diferente da maioria dos outros narcisos, a trombeta característica do género parece-se com um cone e sobrepõe-se em tamanho às tépalas, muito menos proeminentes. A Rumulea bulbocodium é menos usada em jardinagem mas, o seu potencial é bastante grande. Para um eventual cultivo terá sempre que se proporcionar uma boa drenagem e um solo alcalino. Rumulea lembra um pequeno crocus, trata-se na verdade de um caso de evolução convergente com esse género botânico. Narcissus bulbocodium e Rumulea podem fazer uma boa combinação, podendo-se replicar em jardim aquilo que se encontra na Natureza. 

Rumulea bulbocodium
Rumulea bulbocodium
Rumulea em escarpa voltada a Norte
Narcissus bulbocodium / Rumulea bulbocodium
N. bulbocodium em escarpa voltada a Norte
N. bulbocodium / Rumulea 
N. bulbocodium em falésia marítima, São Martinho do Porto 
Euphorbia portlandica / N. bulbocodium
Sedum sediforme
Por ultimo, mais duas espécies encontradas nas falésias de São Martinho do Porto: Sedum sediforme Euphorbia portlandica. 
Sedum sediforme, uma crassulacea de grande interesse ornamental, pode ser encontrada com facilidade em quase todo o litoral português. Presta-se sobretudo a ser usado em jardins rochosos ou litorais, com solo alcalino e bem drenado, com exposição soalheira. A floração acontece mais tarde no ano, mas as suas inflorescências são bastante vistosas com hastes até 50 cm de altura, de um amarelo pálido bastante interessante.   
Euphorbia portlandica, mais uma Euphorbia autóctone com potencial interesse para jardins. É uma planta de pequeno porte mas, com cores bastante vivas e que pode também ser usada em jardins rochosos. Encontra-se em arribas litorais de Norte a Sul do país e não é exclusiva de cá, encontrando-se em quase todo a costa atlântica da Europa, desde Portugal até às Ilhas Britânicas.  


Narcissus em São Martinho do Porto

quinta-feira, 17 de março de 2016

Cores de Março

Prunus "Pissardii", Jardim Botânico da Ajuda
Olaia, Cercis siliquastrum
Pulsatilla halleri
 Rosa banksiae "Lutea" 
Ferrula communis
Lupinus angustifolius/ Rosa banksiae / Exochorda x macrantha
Cercis e Centranthus ruber /Rosas não identificadas
Estufa real e Plantas da Oceania
A Primavera anda por Lisboa, não é preciso procurar muito para encontrar sinais da sua presença na cidade. Ficam aqui alguns dos meus registos, feitos sobretudo no Jardim Botânico da Ajuda e  em Benfica. 

Neste conjunto destaco a vistosa Ferula communis, o funcho-gigante, embora esta planta não seja um funcho, trata-se na verdade de um género diferente. Aliás convém não confundir as duas espécies, pois ao contrario do vulgar funcho (Foeniculum vulgare), a Ferula communis é uma planta tóxica para o Homem. Ferula destaca-se claramente numa plantação, é bastante ornamental fazendo conjuntos interessantes com Verbena bonariensis ou Verbascum, entre outros. Pelas suas dimensões presta-se como ponto focal de um canteiro ou integrada num conjunto com paleta de coloração moderada, com amarelos e purpuras, por exemplo. 

Outra planta autóctone de bastante interesse ornamental é o Lupinus angustifolius, planta frequentemente encontrada em prados e nas bermas de caminhos. As suas inflorescências azuis falam por si e parece que na Austrália é já usada como planta de jardim. 

Por ultimo, uma alpina, das minhas plantas preferidas, a bela Pulsatilla halleri. Nativa das montanhas do sul de França, norte de Itália até aos Balcãs. Como todas as pulsatilas exige um solo com excelente drenagem, rico e com pH alcalino. Estas plantas detestam perturbação e não florescem enquanto não estiverem bem estabelecidas. Depois de plantadas, podem levar anos até estarem prontas para entrar em floração. Desta forma, o melhor maneira de propagar Pulsatilla é por sementeira em local definitivo. 

domingo, 13 de março de 2016

Visita ao Parque do Monteiro-Mor

Híbrido de Primula veris / edifício do museu
Foi num dia de Inverno com bastante frio, como quase todos os anos o final de Fevereiro nos trás, que recentemente visitei o Parque do Monteiro-Mor. Situado fora do centro de Lisboa e junto a uma das mais movimentadas vias de acesso à cidade, o parque do Monteiro mor é talvez um dos parques urbanos menos frequentado e menos conhecido. Facto totalmente injustificado, na verdade trata-se de um dos melhores jardins da capital, senão mesmo o melhor, revelou-se uma autentica surpresa.  

A história deste Parque é muito interessante: o jardim remonta ao século XVIII mas o desenho actual deve-se ao botânico austríaco Friedrich Welwits, o mesmo que em 1859 descobriu a Welwitschia mirabilis em Angola, numa expedição comissionada pelo governo português. Welwits inicia os grandes trabalhos de redesenho paisagístico, passando o jardim a ter um estilo mais à inglesa, muito popular no século XIX. O jardim adquire rapidamente grande prestigio e procura, de tal forma que os duques de Palmela, proprietários do jardim e palácios, viram-se obrigados a cobrar entradas. Remontam a esta época áurea o lago dos cisnes, a cascata e grutas, tendo sido mais tarde construídos os jardins formais em buxo, onde actualmente se pode encontrar um roseiral, uma horta e jardim de ervas aromáticas.

Jardim de buxo com roseiral e horta
Camellia / Narcissus sp. 
Vista do terraço do museu de teatro, com o lago dos cisnes ao fundo
Plátano / Araucaria / Uma das varias cascata
É já durante o século XX que os jardins entram em declínio, e é em 1975 que chega às mãos do estado num acentuado estado de abandono. Os trabalhos de recuperação iniciam-se pouco depois e é nessa altura que se salva aquela que foi a primeira Araucaria heterophyla plantada ao ar livre na Europa e que ainda hoje domina todo o jardim superior. Fazem parte da colecção do parque Platanus, Fuchsia, Camellia, Poinsettia, Hydrangea, entre outros. A plantação herbácea actual é dominada pela Achanthus molis e Smyrnium olusatrum, mas também vários fetos e algumas Hemerocalis. Nesta altura do ano podemos ver em floração as Iris germanica, Bellis e híbridos de Primula veris.  

Zona de fetos / HemerocallisSmyrnium olusatrum
Zona de bosque e rio 
Para fora do jardim fica uma zona de campo e floresta, com um prado aberto. Esta zona foi anteriormente usada para agricultura tendo sido  depois recuperada como área florestal. Adjacente à floresta, fica uma área destinada ao cultivo que inclui uma série de lotes aproveitados como hortas urbanas. A área de bosque é ainda atravessada por um pequeno rio, que faz aumentar em muito o interesse do jardim e que torna o espaço bastante aprazível, sobretudo no verão. 

http://www.flora-on.pt/#/1Smyrnium+olusatrum
Área de floresta.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Início de Primavera no meu jardim

Vista do jardim no inicio de Março
Março marca o início da Primavera no meu jardim. O mês arranca sempre com uma expulsão de cor, este ano um pouco em continuação do que foi Fevereiro, devido ao tempo ameno está tudo cerca de duas semanas adiantado, sobretudo os narcisos que começaram logo no início do mês anterior. As chuvas e a falta de gelo trouxeram crescimento vegetativo intenso, mas se por um lado temos texturas interessantes, por outro as folhagens bloqueiam o acesso à luz por parte de alguns bolbos mais frágeis, como os crocus. É preciso desbastar folhagens em volta destas pequenas relíquias, senão não chegam sequer a florir. As geadas normais de outros anos, este ano praticamente não existiram e as folhas das plantas vivazes estiveram em crescimento continuo desde as podas de Outono. Para alem dos narcisos, destacam-se em Março os Helleborus,  mas também LeucojumPrimula e Euphorbia. O melhor mesmo é dar uma volta pelo jardim...

Helleborus "Prety Ellen"Narcissus "Tete-a-tete"Helleborus x Ballardiae"Merlin"
Narcissus "Dutch master"/  N. "Ice Follies" / N. "Tete-a-tete" com Stipa e  Cynara 
Helleborus "Pretty Ellen"
Leucojun aestivum, Narcissus, Carex, Festuca
Aquilegia, Achillea, Stachys, Stipa, Euphorbia
Crocus sp. / Leucojum aestivum / Muscari armeniacum
Helleborus niger / Primula acaulis
Euphorbia characias wulfenii plena floração no jardim
Caminho central e vivazes / Euphorbia characias
Vista principal do jardim sobre os canteiros.
De uma forma geral devemo-nos fazer valer de plantas que crescem bem no solo e clima que temos, isso é valido também para bolbos e vivazes de Primavera. As plantas que apresento aqui são todas boas plantas para um jardim nas nossas latitudes. Muitas outras são possíveis, mas estas são as que eu cultivo com algum sucesso e por isso dão garantias de crescerem em qualquer jardim.  Deixo algumas considerações sobre as plantas: 

Hellebrus x hybridus. num clima como o de Portugal os Helleborus devem ser cultivados como planta de sombra, para evitar sol directo nos três meses mais quentes. Garantindo isto, não devem levantar mais problemas. Dão-se perfeitamente bem no nosso país. Preferem solos ricos, com boa drenagem e fresco, de pH alcalino ou neutro. Quando plantar Helleborus deve-se ter atenção em melhorar o solo com alguma matéria orgânica, mas muitas vezes usa-se terra demasiado ácida, por isso deve ser mantida uma proporção de uma parte de composto de compra, para duas partes de terra vulgar de jardim. Pode-se também misturar um pouco de brita de origem calcária para subir o pH para o lado alcalino.  

Leucojum aestivum, conhecido como floco-de-neve, é um pequeno bolbo da mesma família dos narcisos e é nativo da Europa Central até ao médio Oriente. Devem ser tratados basicamente como os narcisos, qualquer solo com boa drenagem e relativamente rico serve para o cultivo destas plantas. São fáceis de manter e aumentam de numero com o tempo.  Estes bolbos foram-me oferecidos pelo José Júlio do Pedras Plantas e Companhia, vieram portanto do Algarve, ou seja garantidamente florescem num clima mais quente. 

Euphorbia characias, são plantas autóctones que de forma alguma devem ficar de fora de um jardim português. Estas plantas preferem solos calcários mas crescem em vários tipos de solo e são bastante fáceis de cultivar. Florescem nesta altura do ano, sendo as suas brácteas bastante interessantes, de um cor verde eléctrico. Têm também interesse durante o resto do ano, introduzindo mudanças de textura.