O Jardim em Novembro

Pennisetum, Euphorbia characias, Verbascum olimpicum, Echinops, Sedum e Phlomis tuberosa

O Outono traz ao jardim tanto dias de sol como dias de chuva. São os dois tão distintos pelo carácter que imprimem ao jardim e estão os dois tão interligados, que é difícil conceber a estação outonal sem um punhado de dias de um tipo e do outro. O mais peculiar é que uns reforçam os outros, na tendência geral de decaimento das formas vegetais que se estabelece nestes meses. Se por um lado os dias de sol ressecam as estruturas, trazem igualmente os primeiros frios nocturnos e as geadas que crestam as folhas e induzem as cores outonais. A chuva, por outro lado, conduz as folhas ao chão, precipitando um fim anunciado há muito e que agora se concretiza. Mas, é o Outono a trabalhar sobre a Terra e há beleza nisto tudo.  

Comove-me o reforçar das texturas quando a luz baixa e vai tocar justamente as estruturas vegetais em decaimento. Como o ultimo acto de uma encenação que começou bem lá atrás, no despertar vernal, e que culmina agora com a dança das espigas das gramíneas ao vento. É uma Miscanthus que esvoaça ao sabor do vento, é uma Pennistum que mantém acesa a leveza do seu aceno no conjunto plantado, fazendo-o durante pelo menos dois meses. A estas junta-se a haste floral da Phlomis tuberosa, que se projecta acima do conjunto para cativar o olhar. E depois há também a luz a tocar as Euphorbia characias e Artemisia, constituindo um elemento textural apaziguador e viçoso, que será novamente quebrado mais à frente pela Sedum 'Matrona' ou pelas ramagens secas da Perovskia. O Conjunto termina não sem antes apreciarmos a justaposição com uma magnifica Verbascum de roseta bem cheia, anunciando já tudo aquilo que irá fazer mais à frente, uma vez chegado o Verão. 

O interesse do jardim faz-se por estas alturas deste jogo textural, que quanto mais intrincado for, mais interessante será. Quanta maior diversidade de formas mostrar, mais rico será e mais chamará atenção de quem observa. O Outono marca exactamente uma altura única do ano para constatar estes jogos de texturas, tanto porque existe uma natureza doce e apaziguadora na luz, mas também porque, exactamente neste altura, as plantas encontram-se despidas do seu principal interesse: a floração. O enfoque está agora na cadencia textural das formas em declínio vegetativo.  

Geranium 'Orion'

Pennisetum, Cotinus, Echinops / Cotinus 'Grace'/ Rosa 'Lady Hillingdon'/ Fruto de Rosa sempervirens

Pennisetum alopecuroides

Miscanthus sinensis 'Zebrinus' / Mischanthus, Pennisetum, Euphorbia

O 'jardim seco' em Novembro
É por isso urgente vir ao Jardim num dia de Novembro e olhar, ver com olhos de ver. Encontrar pontos de interesse na plantação que vão para alem daqueles que se encontraram em Junho ou Julho, quando o brilho das hastes de flor não deixam adivinhar outros prazeres mais diluídos. É preciso ver o jardim para alem da exuberância estival: agora não é a dança das flores que te prenderá o olhar, mas se encontrares um grupo de Stachys com as hastes florais secas, e se isso te despertou interesse, estou certo que o teu olhar procurará outro igual nos canteiros e se o encontrar, intuitivamente, quererás encontrar um outro. E assim seguirás pela plantação, guiando o olhar pela cadência de repetições que por lá se encontra. É agora a vez das texturas te agarrarem,  é agora a vez da subtil variação das formas. 

Mas e a cor? Que  dizer das cores do Outono? Talvez às latitudes meridionais as cores do Outono não sejam as mais vibrantes, mas há sempre aquela planta que nos trás a atmosfera outonal, revelando as suas ores quentes: A Cotinus é uma boa aposta para o outono mediterrâneo, sobretudo a cultivar 'Grace': Não se dá muito por ela durante o verão, porque as suas folhas são de um simples verde, algo modesto perante o cultivar 'Royal Purple'. Mas, chegados ao outono, a mistura de cores quentes de 'Grace' ilumina o canto do jardim onde permaneceu quieta até agora, tendo neste mês a oportunidade de mostrar o que vale. Temos também as roseiras que entram agora num período de descanso, deixando adivinhar a dormência com bonitos amarelos nas folha e os vermelhos dos frutos. São também as poáceas que ganham cor, estimuladas pelos primeiros frios outonais, vestem-se de amarelos e laranja. A Euonymus alatus merece aqui um destaque no campo da cor, é que mesmo às nossas latitudes ganham um tom vermelho difícil de encontrar noutras plantas.

'Helleboru's walk'. com Euchera, Tierella, Viola e Helleborus em primeiro plano

Mas, falar do Outono é falar do jardim que se projecta e se transforma. São as bolbosas que vão para a terra, canteiros que se (re)desenham, árvores que se plantam... O jardim ganhou este ano a "Helleborus' walk", novos canteiros e novas plantas: muitos canteiros foram reorganizados para acomodar novas vivazes, ganhou espaço para mais bolbos. Entre eles temos Tulipa turkestanica, cujos bons resultados do passado me fizeram comprar mais desta excelente espécie. Tal como a Tulipa saxatilis, que vi em Kew a brilhar ao sol de Abril, e desde então sabia que um dia a tinha que ter no meu jardim. Mas também novos narcisos, como Narcissus 'Hawera', que pertence ao grupo do N. cyclamimeus e que é, na minha opinião, um dos mais belos feitos até hoje. A nova Fritillaria é a comum e fantástica F. meleagris (já se encontram na terra desde Maio), que irá trazer, se tudo correr bem, um interesse renovado ao jardim de Primavera; onde se irá juntar à lindíssima Fritillaria uva-vulpis. E assim se inicia o novo ciclo dos bolbos de Primavera, enquanto se fecha o ciclo indispensável das vivazes.

O jardim de Outono é um lugar onde se vai, não para viver em pleno sopro como no Verão, mas antes para assistir à retirada de mais um ano. É um jardim que transparece na beleza do que se extingue e das formas temporariamente gastas, mas é sobretudo um cântico que se escuta em silêncio, e que só é ouvido por aqueles que fazem jardim e o vivem a cada estação.  


Comentários

  1. I would like Phlomis, but I am afraid it is too big and exuberant for my space.

    I can have that particular sculptural interest from Leonotis.

    Thinking of 'autumn' colour here as the fiddlewood is covered in fresh leaves of a rich terracotta.

    ResponderEliminar
  2. Adoro a Cotinus coggygria, mas a minha não ficou com essas cores, quando comecou a chover cairam as folhas e mais nada... Mas a que me chama mais à atenção é a Phlomis tuberosa, a flor é bonita mesmo assim seca <3

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares